O dia passou rápido, e Paulo não teve tempo de ir ao escritório. À noite, quando chegou em casa com Yuri adormecido nos braços, Luiz entregou-lhe uma correspondência lacrada.
– Estava em cima de sua mesa. Achei melhor trazer para você dar uma olhada.
Paulo abriu o envelope e leu a correspondência às pressas, atropelando-se nas palavras. Ao terminar, sentou-se, aturdido, na cama.
– Que cara é essa, Paulo?
– Estou sendo devolvido para o Catete. A Novacap agradece minha “valiosa” ajuda pelos serviços prestados – falou ironizando. – Tenho que me apresentar no Rio em cinco dias.
– A Novacap não pode te devolver para o Catete, aqui tem serviço demais. Você vai fazer falta!
– Outra pessoa deve vir ocupar o meu lugar.
– Aí tem “maracutaia”. Tudo é muito estranho, mesmo porque eu sei que estão satisfeitos com seu trabalho.
– Amanhã vou ver se consigo esclarecer alguma coisa. Às vezes foi algum engano. – acomodou Yuri no berço, cobrindo-o com cuidado e foi tomar um banho para tentar dormir.
No dia seguinte, no escritório, foi informado de que as ordens vieram diretamente do Palácio do Catete e que não poderiam fazer nada, a menos que ele fosse até lá e conseguisse reverter a situação.
Paulo passou o dia sem conseguir trabalhar direito. Colocou em ordem algumas pendências, atualizando os relatórios de sua responsabilidade e, no final da tarde, buscou Joyce, que o aguardava na saída da escola.
– Que carinha é esta, aconteceu alguma coisa? –Joyce falou, acomodando-se no jipe e beijando-lhe levemente os lábios.
– Aconteceu, sim... mas que tal comermos alguma coisa? Não almocei direito e agora... – disse enquanto passava a mão pelo estômago vazio.
– Paulo, já falei para você cuidar direito de sua alimentação... se continuar assim pode até adoecer.
Na churrascaria JK, enquanto aguardavam serem servidos, Paulo tirou do pescoço uma fina corrente de ouro com um pingente com a face de Cristo, colocando-a em Joyce.
– O que é isto?
– Esta corrente tem muito valor para mim.
– Mas por que colocou no meu pescoço?
– Para nunca se esquecer que eu te amo.
– Paulo, o que está acontecendo? Desde que me buscou na escola estou achando-o triste e encabulado – perguntou preocupada.
– Ontem, à noite, recebi uma correspondência. Estão me devolvendo para o Catete. Tenho que estar no Rio em cinco dias....
– Vai embora para o Rio?
– Não sei ao certo o que está acontecendo, então acho melhor ir lá pessoalmente resolver isto.
– Você não volta mais... – abaixou os olhos, entristecida.
– Claro que volto, Joyce! Não quero perder você, meu lugar é aqui.
Joyce olhou para o teto do restaurante, desanimada.
– Quero casar com você, me espere...
– Não me prometa nada, por favor!
– Não confia em mim?
– Confio. Mas a questão não é esta. Assim que tocar os pés na areia da praia, perceberá que tudo que aconteceu aqui foi uma ilusão passageira que o tempo se encarregará de colocar um ponto final.
– Não, Joyce, não é nada disto!
– Pelo pouco que conversamos sobre o assunto, sei que, antes de você vir para cá, também achou que não fosse para sempre, e até uma noiva deixou aguardando no Rio.
Paulo se calou ao perceber que estava fazendo a mesma coisa que fizera com Mariângela: deixar que a emoção do momento o conduzisse a promessas, que, em longo prazo, não poderia saber se seriam cumpridas.
– Desculpe! Estou falando o que realmente sinto, mas vamos deixar que o tempo se encarregue de mostrar que eu a quero de verdade.
Joyce fez um movimento para tirar o colar do pescoço, mas Paulo a impediu.
– É seu. Não se recusa um presente quando é dado de coração.
– Está bem, obrigada. Como vai fazer com Yuri?
– Vou levá-lo. É meu filho agora.
– Eu sei... mas quem vai cuidar dele enquanto trabalha?
– Não pretendo voltar a trabalhar lá. Só quero resolver esta situação e continuar com minhas atividades aqui.
– Quando vai partir?
– Amanhã. Não vou aguardar os cinco dias. Pretendo resolver logo isto.
– Então não nos veremos mais...
– Acho que não. Você trabalha o dia inteiro, e eu preciso colocar algumas coisas ainda em ordem.
– Foi muito bom conhecer você. Obrigada por tudo.
– Joyce, por favor, não faça isto parecer uma despedida!
Continua...
Custódia Wolney







