domingo, 8 de novembro de 2009

O preço de um sonho - Paulo é transferido para o Rio de Janeiro


O dia passou rápido, e Paulo não teve tempo de ir ao escritório. À noite, quando chegou em casa com Yuri adormecido nos braços, Luiz entregou-lhe uma correspondência lacrada.

– Estava em cima de sua mesa. Achei melhor trazer para você dar uma olhada.

Paulo abriu o envelope e leu a correspondência às pressas, atropelando-se nas palavras. Ao terminar, sentou-se, aturdido, na cama.

– Que cara é essa, Paulo?

– Estou sendo devolvido para o Catete. A Novacap agradece minha “valiosa” ajuda pelos serviços prestados – falou ironizando. – Tenho que me apresentar no Rio em cinco dias.

– A Novacap não pode te devolver para o Catete, aqui tem serviço demais. Você vai fazer falta!

– Outra pessoa deve vir ocupar o meu lugar.

– Aí tem “maracutaia”. Tudo é muito estranho, mesmo porque eu sei que estão satisfeitos com seu trabalho.

– Amanhã vou ver se consigo esclarecer alguma coisa. Às vezes foi algum engano. – acomodou Yuri no berço, cobrindo-o com cuidado e foi tomar um banho para tentar dormir.

No dia seguinte, no escritório, foi informado de que as ordens vieram diretamente do Palácio do Catete e que não poderiam fazer nada, a menos que ele fosse até lá e conseguisse reverter a situação.

Paulo passou o dia sem conseguir trabalhar direito. Colocou em ordem algumas pendências, atualizando os relatórios de sua responsabilidade e, no final da tarde, buscou Joyce, que o aguardava na saída da escola.

– Que carinha é esta, aconteceu alguma coisa? –Joyce falou, acomodando-se no jipe e beijando-lhe levemente os lábios.

– Aconteceu, sim... mas que tal comermos alguma coisa? Não almocei direito e agora... – disse enquanto passava a mão pelo estômago vazio.

– Paulo, já falei para você cuidar direito de sua alimentação... se continuar assim pode até adoecer.

Na churrascaria JK, enquanto aguardavam serem servidos, Paulo tirou do pescoço uma fina corrente de ouro com um pingente com a face de Cristo, colocando-a em Joyce.

– O que é isto?

– Esta corrente tem muito valor para mim.

– Mas por que colocou no meu pescoço?

– Para nunca se esquecer que eu te amo.

– Paulo, o que está acontecendo? Desde que me buscou na escola estou achando-o triste e encabulado – perguntou preocupada.

– Ontem, à noite, recebi uma correspondência. Estão me devolvendo para o Catete. Tenho que estar no Rio em cinco dias....

– Vai embora para o Rio?

– Não sei ao certo o que está acontecendo, então acho melhor ir lá pessoalmente resolver isto.

– Você não volta mais... – abaixou os olhos, entristecida.

– Claro que volto, Joyce! Não quero perder você, meu lugar é aqui.

Joyce olhou para o teto do restaurante, desanimada.

– Quero casar com você, me espere...

– Não me prometa nada, por favor!

– Não confia em mim?

– Confio. Mas a questão não é esta. Assim que tocar os pés na areia da praia, perceberá que tudo que aconteceu aqui foi uma ilusão passageira que o tempo se encarregará de colocar um ponto final.

– Não, Joyce, não é nada disto!

– Pelo pouco que conversamos sobre o assunto, sei que, antes de você vir para cá, também achou que não fosse para sempre, e até uma noiva deixou aguardando no Rio.

Paulo se calou ao perceber que estava fazendo a mesma coisa que fizera com Mariângela: deixar que a emoção do momento o conduzisse a promessas, que, em longo prazo, não poderia saber se seriam cumpridas.

– Desculpe! Estou falando o que realmente sinto, mas vamos deixar que o tempo se encarregue de mostrar que eu a quero de verdade.

Joyce fez um movimento para tirar o colar do pescoço, mas Paulo a impediu.

– É seu. Não se recusa um presente quando é dado de coração.

– Está bem, obrigada. Como vai fazer com Yuri?

– Vou levá-lo. É meu filho agora.

– Eu sei... mas quem vai cuidar dele enquanto trabalha?

– Não pretendo voltar a trabalhar lá. Só quero resolver esta situação e continuar com minhas atividades aqui.

– Quando vai partir?

– Amanhã. Não vou aguardar os cinco dias. Pretendo resolver logo isto.

– Então não nos veremos mais...

– Acho que não. Você trabalha o dia inteiro, e eu preciso colocar algumas coisas ainda em ordem.

– Foi muito bom conhecer você. Obrigada por tudo.

– Joyce, por favor, não faça isto parecer uma despedida!

Jantaram quase em silêncio, provando o gosto amargo de um distanciamento forçado. Quando saíram, foram direto para o convento buscar Yuri. Paulo apenas disse às freiras que passaria uma semana fora com a criança e que, quando voltasse, gostaria muito de poder continuar contando com a ajuda delas.


Continua...


Custódia Wolney

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O preço de um Sonho - Taguatinga: uma realidade.


Joyce comentou com Paulo sobre a vontade que tinha de ir até Taguatinga, pedir autorização do subprefeito da cidade para adquirir um lote. Era a oportunidade de ter alguma coisa sua, pois não poderia continuar, por tempo indeterminado, morando no Hotel Brasília. Paulo, de início, foi um pouco resistente, não queria que Joyce se submetesse a viver em algum barraco, distante da Cidade Livre, só para ter seu pedaço de chão. Porém, como ela demonstrou muito interesse e pediu a sua ajuda, combinaram de no outro dia irem juntos conhecer a nova cidade que surgia.
A Vila Sarah Kubitschek já tinha sido totalmente transferida, e a Novacap, além de ter colocado caminhões para transporte diário dos os trabalhadores, já havia dado início à construção do Hospital São Vicente de Paulo e de uma escola primária de alvenaria. Joyce e Paulo seguiram para a Administração, um barracão simples de madeira, e lá, foram informados de que só poderiam adquirir um único lote os trabalhadores e servidores mais carentes. Não havia contrato definitivo. O trabalhador interessado pagaria uma mensalidade à Novacap, como prestação, e que posteriormente seria abatida do preço do imóvel na época da compra definitiva. O terreno não poderia ser vendido e, para obter a escritura do lote, teria que construir e habitar, por pelo menos cinco anos.
Paulo ainda tentou convencer Joyce de não efetuar a compra, mas Joyce estava decidida demais para mudar de idéia e, ao saírem, já tinha em mãos a papelada e a localização de seu lote que ficava na parte sul da cidade.
– Agora tenho que construir... estou pensando em alguma coisa simples, de madeira, e, quando eu tiver uma condição financeira melhor, construo uma casa de alvenaria – comentou sorridente, enquanto entrava no jipe.
Paulo olhou com ar de preocupação, lembrando-se de Sofia, do barraco caído no chão, e fez um movimento negativo com a cabeça.
– Não, Joyce, de madeira, não! Basta a imprudência que eu e Gaspar permitimos que Sofia cometesse.
– Aquilo foi um triste acidente. Você não consegue esquecer, não é? – passou as mãos lentamente pelos cabelos de Paulo.
– Não vou esquecer nunca. Trago o filho dela comigo e agora posso ver os traços de Sofia no rostinho de Yuri.
– Não vai acontecer de novo e também não construirei um barraco qualquer, sem segurança. Será uma casa modesta de madeira.
– Vou ajudar você. Devagarzinho, sem pressa, podemos construir juntos uma casa de alvenaria que lhe ofereça mais conforto.
– Paulo... você já tem tantos compromissos e preocupações, além de mandar dinheiro para sua família... não acho justo.
– Joyce, entenda: você agora faz parte de minha vida e não quero ficar de fora de seus planos.
– Mas...
– Por favor, me deixe participar – acariciou as mãos dela lentamente, enquanto dirigia.
– Obrigada. Acho que você é um anjo que caiu do céu, bem nos meus braços! – sorriu.


Continua...



Custódia Wolney



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Preço de um Sonho - Joyce e Paulo


Na tarde daquele mesmo dia, Mariângela embarcou para o Rio de Janeiro. Paulo ficou surpreso e se sentia mais leve diante daquela demonstração de maturidade e compreensão. Do aeroporto, seguiu direto para o Hotel Brasília à procura de Joyce. Tinha uma urgência em vê-la e não aguardaria o domingo para encontrá-la na missa.
– Poderia chamar a Joyce, por favor? – pediu ao porteiro assim que entrou no hotel.
– Ela não chegou do trabalho ainda. Se o senhor quiser aguardar...
– A que horas normalmente ela chega?
– Às vezes atrasa um pouco, mas já deve estar quase chegando – falou olhando o relógio pendurado na parede.
Paulo estava ansioso e resolveu esperá-la na parada de ônibus. Quando estava se aproximando, viu o veículo diminuindo a velocidade, levantando poeira. Escondeu-se atrás de um frondoso ipê amarelo e assim que Joyce passou, segurando seus livros e os diários dos alunos, a seguiu silenciosamente, por trás, tapando-lhe as vistas com as mãos.
– Quem é? – falou parando assustada.
– Se descobrir ganha um beijo e um queijo – brincou ele.
Joyce reconheceu aquela voz e suspirou aliviada.
– Paulo! Que susto! – virou-se sorrindo e tirando as mãos dele do seu rosto.
– Adivinhou com muita facilidade!
– Reconheceria sua voz em qualquer lugar...
– Então... só falta ganhar o beijo...
Joyce se aproximou, esperando o beijo na testa, tão comum em suas despedidas, porém, ele segurou-lhe o queixo, levantando seu rosto com cuidado e se aproximou lentamente de seus lábios.
– Se não quiser, pode falar que eu paro... – sussurrou.
Joyce o puxou para si, entregando-se àquele momento. Seus livros caíram no chão e os diários sujariam na poeira da rua, mas não havia nenhum problema... os materiais poderiam esperar.


Continua...


Custódia Wolney.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O preço de um sonho - Paulo e Mariângela: A separação.


Naquela visita de Juscelino, várias outras obras estavam sendo inauguradas como a Rodovia Anápolis-Brasília, o Hotel Turismo, a Avenida das Nações, o Santuário de Fátima, conhecido como “a Igrejinha”. Mariângela queria conhecer tudo o que estava sendo feito, na tentativa de absorver por completo as atenções de Paulo. Visitou a construção dos edifícios de apartamentos de seis andares cada um, várias unidades residenciais e casas tipo “duplex”, porém não gostou muito das casas geminadas que estavam sendo construídas pela Caixa Econômica. Viu ruir sua esperança de que a construção de Brasília caísse no total descrédito, sem acontecer de fato, e sentia que Paulo estava muito envolvido com a nova cidade.


A cada passeio que fazia, Mariângela estava com um vestido novo, e, por mais que Paulo a prevenisse dos transtornos que seria visitar as obras com saltos altos, ela parecia não perceber ou não se preocupar com o total contraste de seu estilo de roupas com a singularidade das pessoas que circulavam pelas obras.


Ao anoitecer, Paulo buscou Yuri no convento e foi para a casa operária, pensativo. Começou a achar tudo artificial em Mariângela: os cílios postiços, a maquiagem carregada para um dia de sol quente, os saltos, que a todo momento afundavam na terra dificultando a caminhada, a insistência com que falava do teatro e das peças que ainda estavam por ser lançadas no Rio de Janeiro. Sabia das diferenças existentes no relacionamento deles, porém, agora, começava a perceber o abismo que a distância formara entre os dois.


No dia seguinte, ao buscar Mariângela no Hotel Santos Dumont para mais um dia de visita, levou-a até a avenida central da Cidade Livre. Deixou de lado a preocupação que tinha em lhe mostrar apenas o que estava sendo erguido em Brasília, e estacionou o jipe, convidando-a para uma caminhada a fim de conhecer a cidade e o burburinho de seu comércio. Mariângela aceitou a contragosto e saíram andando por entre aquelas construções simples de madeira, a rua cheia de trabalhadores braçais com seus macacões ou grossas calças de brim e, na cabeça, o tradicional chapéu de abas largas para se protegerem do sol. Muitos paravam para ver aquela silhueta delicada, cuja presença se destacava entre as demais mulheres moradoras do local, e todos, ao olhá-la, percebiam que se tratava de uma socialite que estava visitando a nova capital. Entraram na mesma padaria em que ele costumava tomar café na companhia de Joyce, quando então ele perguntou se aceitava alguma coisa.


– Não, obrigada, prefiro ir. Estou ficando cansada.


O atendente estranhou ver Paulo com aquela alinhada desconhecida e correu para tirar a poeira de uma das mesas e acomodá-los da melhor maneira possível. Mariângela sentou-se, olhando em volta. Não se sentia à vontade, observava, chocada, a quantidade de caminhões, cavalos, bicicletas, charretes e transeuntes que se misturavam na rua, empoeirada e sem asfalto, e achava de um grande mau gosto a música nordestina que saía dos alto falantes situados nos postes da avenida.


– Paulo, volte para o Rio. Aqui não é lugar para nós.


– Não pretendo mais voltar, aprendi a gostar daqui – falou pausadamente.


– E a gente? Você está cada vez mais distante.


– Teria coragem de deixar o Rio e vir morar comigo?


– Não gostei desta cidade, Paulo! Parece até que estou participando de uma cena de algum filme de faroeste! E esta poeira? Minha pele está toda ressecada! – olhou com ar de desdém para as simples instalações da padaria. – Vamos embora. Você já deu sua contribuição para esta maldita cidade! Não percebe que isto está nos afastando um do outro?


– Não quero prendê-la, mas se você encontrar no Rio alguém que a faça feliz, vou entender.


– O que você quer dizer com isto? Está rompendo nosso compromisso? – seus olhos encheram-se de lágrimas e, pela primeira vez, não se preocupou em borrar a maquiagem.


– A distância me fez ver que nossos caminhos são opostos, acredito que a separação será a melhor saída – conseguiu Paulo dizer.


– Você não sabe o que está dizendo. Eu te amo! Isto aqui é uma ilusão, tenho certeza de que se voltar ao Rio tudo voltará a ser como antes.


– Eu não pretendo voltar para o Rio, e seu estilo de vida não permitirá a você se adaptar aqui. O que aconteceu entre nós foi muito bonito e eu não vou esquecer nunca... porém, agora, nossas vidas tomaram rumos diferentes.


Mariângela não queria deixar transparecer seu ciúme. Sentia vontade de gritar, pedir satisfações sobre aquela mulher que vira ao lado dele no dia da inauguração do Palácio da Alvorada, queria impor que voltasse para o Rio, porque ele lhe pertencia, e não tinha o costume de aceitar um “não” com tanta facilidade.


Continua...


Custódia Wolney.

domingo, 13 de setembro de 2009

O preço de um sonho - Paulo e Joyce, a descoberta do amor.


Joyce levou Yuri para o hotel, enquanto trazia os olhos empapuçados de tanto chorar. A criança puxava sua calça querendo colo e atenção, sem entender a tristeza que cobria aquele rosto bonito.


Era tarde da noite quando Paulo chegou ao hotel para buscar Yuri que, então, já adormecera. Joyce abriu a porta devagar, tentando ser o mais natural possível. Porém, depois de um banho demorado, com os cabelos ondulados ainda molhados e um leve batom nos lábios, nada restava daquela mulher abatida que deixou às pressas o Palácio da Alvorada.


– Desculpe a hora, sei que já é tarde, mas não foi possível vir antes. Onde está Yuri?


– Dormindo. Mas entre... pode pegá-lo.


– Joyce...


– Sei que nestes dias você estará muito ocupado, dando atenção à sua noiva... Se precisar, Yuri pode passar as noites comigo, desde que venha buscá-lo cedo para levar ao convento.


– Se for preciso, pedirei sua ajuda, obrigado. Queria conversar com você... não esperava que Mariângela viesse por aqui.


Conduziu Joyce até a cama, segurando em sua mão e sentaram-se lado a lado.


– Acho que deveria ter conversado a respeito dela antes...


– Paulo, não precisa se preocupar com explicações. Por que deveria ter comentado? É a sua vida e, se não se sentiu à vontade em partilhar isto comigo, não tem problema nenhum.


– Você é minha melhor amiga, porém, a cada dia que a conheço mais, esta amizade se transforma.


– Como assim?


– Primeiro preciso resolver o que já adiei por tempo suficiente, depois a gente conversa.


Paulo tocou-lhe a face com as mãos, percorrendo o contorno de seu rosto, observando a delicadeza de seus traços.


– Não vou atrapalhar mais, amanhã você tem que acordar cedo – Paulo pegou Yuri nos braços indo em direção à porta.


– Boa-noite.


– Boa-noite.


Joyce não tinha sono, pegou um livro e ficou lendo até tarde, tentando pensar em outra coisa. Só quando o viu acompanhado, reconheceu a dimensão de seu sentimento, percebendo que não conseguiria mais esconder atrás da cortina da amizade o seu amor.


Continua...

Custódia Wolney.

domingo, 16 de agosto de 2009

O preço de um sonho - Brasília em construção.


Nos primeiros meses de 1958, as obras do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto, onde o presidente despacharia, tiveram início. As manifestações contrárias à construção da cidade continuavam cada vez mais fortes. A oposição reclamava contra “os requintes de luxo, a suntuosidade exagerada e os gastos exorbitantes” que, segundo eles, estavam sendo a marca registrada da construção da nova capital. Juscelino, então, em seu Viscount, trazia para Brasília poetas, cronistas, jornalistas, músicos, cantores, artistas de cinema e televisão. Com esta iniciativa, todos que participaram da caravana artística de Juscelino puderam ver de perto que a nova capital não era um despropósito administrativo, para desviar dinheiro dos cofres da união, como a oposição insistia em dizer, manipulando a opinião pública mas, sim, uma cidade planejada, possível de ser executada. Muitos, depois da visita à nova cidade, tornaram-se aliados de Juscelino no esclarecimento à população do que realmente estava acontecendo em Brasília.
Naquele dia 30 de junho estava sendo inaugurado o Palácio da Alvorada, residência oficial do Presidente. Todos escutavam atentamente o discurso de Juscelino. Paulo e Joyce buscavam um lugar onde pudessem sentar e descansar as pernas. Sentaram-se próximo ao pequeno lago artificial que circundava o palácio. Quando Paulo, distraído, sentiu o cheiro do tão conhecido perfume francês, levantou os olhos e, por um instante, ficou parado, sem nada dizer. Joyce, que estava sentada ao seu lado na grama, usando uma calça de brim, não entendeu o olhar fulminante que aquela mulher bem vestida dirigia para os dois.
– Mariângela! Que surpresa vê-la aqui! – levantou, meio sem jeito, limpando a calça e indo ao seu encontro.
– Querido! Não estava mais agüentando a saudade e vim fazer uma surpresa para você!
Joyce levantou-se constrangida, e Paulo a apresentou como sendo uma amiga.
– Joyce, esta é Mariângela, minha ...
– Noiva – completou com um olhar desafiante, observando-a por inteiro. Achou-a simples demais, porém com uma beleza que não era possível passar despercebida.
Seguiram andando lado a lado. Mariângela abraçou Paulo, afastando-o cada vez mais de Joyce, que se sentia dispensável naquela cena romântica.
– Vamos passear pelo palácio, querido. Ainda não tive tempo de conhecer as instalações.
– Joyce, venha conosco – sentia-se envergonhado, sem saber ao certo como conduzir a situação.
– Não, Paulo. Já estava mesmo de saída. Vocês devem ter muito que conversar. Vou levar Yuri comigo para que fiquem mais à vontade.
Mariângela não entendeu o comentário, nem deu a mínima atenção à criança que estava perto do lago. Joyce pegou-a no colo e saiu às pressas entre a multidão. Tinha medo que a vissem chorando, tamanha a surpresa que tivera. Não sabia que ele era compromissado, e vendo aquela moça tão requintada, de vestido alinhado feito com pano caro, sentiu-se pequena e insignificante dentro daquela calça de brim e sapato grosseiro. Entendeu por que nunca conseguira ser atraente aos olhos de Paulo, nem despertar nele nenhum sentimento além da amizade. O que ele poderia querer com uma moça do interior que não conhecia nada da vida, cuja maior experiência não passava além das portas de um convento?

Custódia Wolney.

Continua...

sábado, 25 de julho de 2009

O preço de um sonho - O nascer de Taguatinga


A Vila Sarah Kubitschek crescia assustadora e desordenadamente. Paulo evitava ir até lá, pois as lembranças da perda de Sofia ainda eram recentes.


Naquele dia, ao cair da tarde, mais de duas mil pessoas, sabendo que Juscelino teria um jantar marcado na Churrascaria JK, ficaram à sua espera, com faixas e cartazes. Queriam continuar onde estavam, nas proximidades da Cidade Livre, e o aguardavam para fazer esta reivindicação. Porém, alertado por seus assessores dos riscos que seria sua ida até lá, Juscelino achou mais conveniente cancelar o jantar. Representantes da Novacap subiram num palanque improvisado de caixotes de madeira e tentavam convencer os trabalhadores a se transferirem para uma nova cidade, distante uns vinte e cinco quilômetros do Plano Piloto, onde poderiam adquirir seu lote, a preços módicos, pagando a longo prazo. Prometeram que a empresa cuidaria da transferência de todos, daria transporte para o local de trabalho, construiria os barracos, além de providenciar assistência médica. Porém, os trabalhadores estavam resistentes, muitos deles movidos por conselhos de alguns comerciantes da Cidade Livre, que não queriam perder a receita que estas famílias geravam para seus estabelecimentos.


No outro dia, um grupo de representantes da Novacap saiu de barraco em barraco na vila, na tentativa de convencer as famílias a abandonarem aquele local precário, onde os abrigos eram feitos de madeira velha, outros de latas ou folhas de zinco e sem água nem esgoto, aumentando o risco de vários tipos de doenças, devido à falta de higiene. Mas a resistência era grande e, no primeiro dia, só conseguiram transferir uma família.


Naquela noite, Paulo acordou assustado com a agitação que se formava em frente ao escritório da Novacap. Mais de cem pessoas desfilavam reivindicando que a Vila Sarah Kubitschek permanecesse no mesmo local, e alguns, mais inconformados, portavam tochas de fogo e queriam incendiar o escritório, de madeira, da empresa. Paulo vestiu-se às pressas e acordou Luiz que dormia profundamente. Pediu que olhasse Yuri, enquanto estivesse fora, e foi ao encontro de outros funcionários para acalmar o ânimo dos manifestantes. Luiz ficou sonolento, com o rosto gordo a olhar pela janela do quarto o movimento da rua improvisada. Nascia assim, em meio a uma grande resistência, a cidade de Taguatinga, para receber o grande número de pessoas simples, vindas dos quatro cantos do Brasil.


Gaspar tinha reduzido suas visitas à Brasília e, agora, vendo a concretização do sonho de Sofia sendo vivido por tantas famílias, decidiu desligar-se totalmente das atividades na nova capital, ficando definitivamente no Rio. Antes de partir, voltou às sombras da amoreira, perto do riacho, recordando seus encontros, sem aceitar a injustiça que a vida havia imposto. Pegou um canivete de bolso que sempre levava consigo e feriu o tronco do pé de amora com um “S” de Sofia, de saudade... Com um olhar demorado, despediu-se de uma parte de sua vida que jamais poderia ser resgatada.

Continua...


Custódia Wolney