sábado, 19 de dezembro de 2009

O preço de um sonho - Mariângela rejeita Yuri.


Paulo saiu do Solar Arruda, sentindo-se um prisioneiro onde as grades de sua cela eram invisíveis. Mas, como romper os grilhões que o acorrentavam ao Rio e à influência de um brigadeiro que fazia tudo para atender aos caprichos de sua única filha para aliviar a consciência do peso de seu fracasso como pai?

A tarde caía e o pôr-do-sol em Copacabana era um cartão postal de boas-vindas. Caminhou com Yuri sobre a areia branca da praia, enquanto as gaivotas voavam à mercê do vento, buscando descanso nas pedras ainda quentes do calor do sol que se despedia. Ficou ali, na orla, até que a brisa fria do anoitecer o obrigou a ir embora. Amanheceu. Mariângela, que dormia com uma venda nos olhos para que a claridade do dia não atrapalhasse seu sono, foi surpreendida com umas batidas na porta de seu quarto. Já eram mais de nove horas da manhã. Levantou-se mal-humorada, por não ter dormido até às onze, como de costume.

– O que é? – perguntou irritada.
– Desculpe, senhora. Mas seu Paulo está aqui e deseja falar-lhe.
Mariângela deu um pulo da cama e falou apressada:
– Peça para aguardar um pouco que já estou descendo.


A espera foi demorada, quase uma hora se passou, até que ela descesse as escadas toda alinhada e maquiada.


– Bom-dia, querido! Que bom vê-lo, logo cedo! – aproximou-se para beijá-lo, mas Paulo, sutilmente, virou a face, oferecendo-lhe a bochecha.
– Bom-dia. Preciso de sua ajuda.

– Qualquer coisa. É só dizer que eu faço – abraçou-o pela cintura, ignorando completamente Yuri, que estava no colo de Paulo.
– Em Brasília, eu contava com a ajuda de algumas freiras para cuidar de Yuri durante o dia. Tenho muita coisa a fazer... você se incomoda de ficar com ele? – Não esperou resposta. Pegou a criança e colocou no colo de Mariângela, que ficou chocada com o pedido, ao passo que o menino chorava, estranhando-a.
– Mas, Paulo... eu tenho alguns compromissos agora de manhã... – parou de falar, percebendo que precisava se demonstrar mais solícita. – tudo bem, não se preocupe, tenho certeza de que nos divertiremos muito.
– Trouxe uma mochila. Tem tudo o que precisará: mamadeira, fraldas, leite em pó.... Yuri é uma boa criança. Se der a ele atenção e carinho, não dará trabalho nenhum... Então, já vou indo – olhou para o relógio e saiu apressado.

De longe, ainda podia ouvir o choro de Yuri. Sentiu vontade de voltar e pegar a criança, mas se deteve. Mariângela precisava entender que as coisas seriam diferentes. Tinha medo que maltratasse o menino, mas era um risco que precisava correr até que ela enxergasse que não era aquilo que queria para seu futuro.

Mariângela chacoalhava a criança no colo, de forma brusca e com força. Estava irritada, e Yuri, em resposta àquela rejeição evidente, chorava cada vez mais alto. Sentiu um odor estranho e uma quentura diferente em seu braço. Olhou e ficou enojada ao ver sua blusa de manga comprida ensopada. Era um líquido pastoso e amarelado, com pequenos fragmentos.

– Essa não! Você fez cocô, seu moleque! Olhe como deixou minha roupa? Josenita, Josenita! – gritou.
– Sim, senhora. – A criada entrou na sala esbaforida, com uma vassoura na mão.

– Dê um banho neste menino! A mochila está ali na mesa. Pegue-o rápido – entregou a criança à empregada, como se fosse um traste sujo e nojento.
– Sim, senhora – a empregada pegou a criança e saiu em direção à escada.
– Aonde você pensa que vai, Josenita?

– Dar um banho no menino. – Então por que está subindo as escadas? Não pretende lavá-lo no meu banheiro, não é?
– Eu pensei...

- Chispe para o banheiro dos empregados. Rápido, que este cheiro está muito forte.


Mariângela, apressada, subiu as escadas e tomou um demorado banho, ensaboando-se várias vezes, como se seu braço estivesse contaminado. Quando mais tarde desceu para o almoço, a mesa ainda não estava posta.


– Josenita! – gritou.

– Sim, senhora – saiu da cozinha com a criança no colo.
– O almoço ainda não está pronto?

– Não tive tempo senhora... estava cuidando da criança... eu acho que ela está com fome. O que eu faço?

– Depois que me servir o almoço, se preocupe com ele. Vá, vá, me dê que eu cuido dele enquanto você acaba de fazer a comida. Josenita se aproximou e Yuri começou a chorar no mesmo instante.
– Um momento! Enrole-o num pano para que não me suje de novo.
– Desta vez não vai ter problema. Eu coloquei uma calça plástica que encontrei na mochila.


O dia passou, mas nada que Mariângela fizesse acalmava a criança, que só parou de chorar quando dormiu, num sono agitado, resmungando várias vezes. Paulo deixou para buscá-lo só à noite. Mariângela, que havia perdido o horário no cabeleireiro e o chá das cinco com as amigas, não conseguia disfarçar sua irritação.

– Demorei? – Demais! Pensei que à noite poderíamos sair para nos divertir um pouco...
– Estou muito cansado, Mariângela. Só quero um banho e cama.


Josenita veio da cozinha, e Yuri ao ver Paulo abriu os bracinhos sorrindo.


– E aí, meu camarada, deu muito trabalho? – pegou-o no colo e seu abraço aliviou a saudade e o receio que sentiu durante o decorrer do dia.
– Que nada, é um amor de criança! – falou Mariângela, tentando sorrir, enquanto Josenita olhava desolada aquela simulação de carinho com a criança que só recebera maus-tratos da parte da patroa.

– Obrigado. Mas agora devo ir.


Desviou os lábios quando Mariângela os procurou e beijou-lhe a testa. Aquela frieza a estava incomodando. “Ele vai mudar, tenho certeza. Esta resistência vai acabar depois de uma noite em meus braços.” – pensou.

Continua...


Custódia Wolney

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O preço de um sonho - Mariângela e a tentativa de reconquistar Paulo.


Paulo, se acalme. As coisas nem sempre acontecem como queremos. Aqui no Catete estamos envolvidos com assuntos tão sérios, por favor, não me cause mais um transtorno!

– E se eu conseguir reverter este pedido? – interpelou Paulo.

– Neste caso, o mérito é todo seu. Poderá retornar à nova capital.

Levantou, pegando Yuri nos braços, caminhando em direção à porta.


Pegou o bonde, indo direto para o Leblon. Ao chegar, olhou de frente o Solar Arruda, e sua suntuosidade transmitia uma impressão de poder. Tantas vezes freqüentara aquela casa com naturalidade e, neste momento, aquele excesso de luxo o incomodava, principalmente por se sentir como um bibelô de estante, que, a qualquer momento, poderia ser mudado de posição para enfeitar algum outro lugar.


Mariângela, ao ser avisada pelo porteiro sobre a presença de Paulo, correu para o banheiro, retirando a máscara de beleza que constantemente usava para manter a pele macia. Esperava-o com grande ansiedade, e ele chegara mais cedo do que ela pensava. Paulo aguardava no salão principal e, ao seu lado, Yuri queria tocar em tudo naquela sala cheia de requinte e peças caras. Pegou-o no colo para evitar que quebrasse alguma coisa e esperou por quase uma hora até que Mariângela desceu, sorridente, as escadas. Porém, ao vê-lo parado, com uma criança de quase um ano de idade nos braços, seu sorriso desapareceu dando lugar à inquietude.


– Que saudade! Beijou-lhe a face deixando a marca de seu batom no rosto e na camisa de Paulo que permaneceu frio e distante sem retribuir à insistência de seus carinhos.

– E esta criança, o que faz aqui? – não tocou em Yuri que, chorando, abraçou o pescoço de Paulo.

– É meu filho.

– Como? – balbuciou chocada.

– É meu filho – repetiu.

– Não pode estar falando sério! – virou-se de costas, nervosa.

– Estou, eu o adotei.

– Por que você fez isto? – foi só o que conseguiu dizer, tentando não demonstrar sua insatisfação.

– É uma triste história. A mãe dele morreu... ficou sem ninguém no mundo.

– Não seria melhor tê-lo deixado em alguma instituição de caridade? – falou pausadamente.

– Eu quis ficar com ele.

– Você sempre querendo resolver os problemas do mundo! – criticou com sarcasmo.

– Os problemas do mundo, não, só os desta pequena criança; olhe como ele é lindo!


Paulo se aproximou, mostrando-lhe a criança. Pegou a mão de Mariângela e levou-a até a cabeça de Yuri. Os cachinhos dourados pendiam sobre seu rosto e os olhos azuis, iguais aos da mãe, ficando quase escondidos atrás dos seus grandes cílios.


– Quando você o adotou, em nenhum momento pensou na gente? – perguntou ressentida.

– Não, Mariângela. Só pensei em Yuri. É uma criança muito especial para mim. Mas... você não o aceitaria?

– Paulo, meu querido! Nós vamos nos casar e teremos nossos próprios filhos!

– Talvez você não tenha entendido muito bem nossa última conversa em Brasília...

– O que aconteceu lá foi uma ilusão, pertence ao passado. O importante é que você está aqui e não vou levar em conta o que disse num momento, sem pensar nem refletir direito sobre o que estava dizendo.


Paulo sentou-se no sofá, incrédulo. “Em que mundo ela vive para querer manipular as pessoas desta maneira?” – pensou.

– Quero que converse com seu pai e cancele o pedido que fez. Vou voltar para Brasília – falou sério para não deixar dúvidas sobre o que pretendia fazer.

– Não vou fazer isto, pode ter certeza! – lançou-lhe um olhar de desafio. – Estou apenas protegendo você de si mesmo e daquela selva onde a civilização passa distante. Está cego! Fica se misturando com aqueles operários sujos que circulam na avenida de uma cidade que eu só vi em filmes de bang-bang.

– Minha vida mudou muito neste ano que estive fora. Nada mais será como antes, mesmo que eu fique no Rio até Brasília ser inaugurada; nosso relacionamento acabou, entenda isto.

– Você não está lendo nos jornais, não percebe que esta cidade está a ponto de ter as obras paralisadas?... finalmente algum partido está fazendo alguma coisa... A UDN vai solicitar a instauração de uma CPI.

– Não encontrarão argumentos que justifiquem esta CPI. Pode ter certeza.

– Você é que pensa! Eu não vou pedir nada ao papai! – nervosa, esfregou as mãos. – Você não sabe o que está falando... Eu te amo! – completou.

– Amor pressupõe respeito, e você está passando por cima de mim como um trator, sem se preocupar com o que eu quero, isto não é amor e sim um sentimento de posse.

– Não, querido, dê tempo ao tempo e perceberá como está enganado. Já que adotou esta criança, vou ajudá-lo no que for preciso, mas o seu lugar é aqui, perto do mar e de quem te ama.


Continua...


Custódia Wolney.

sábado, 12 de dezembro de 2009

O Preço de um Sonho - Paulo, a resistência.


A oposição buscava de todas as formas encontrar uma maneira de inviabilizar a continuação da construção de Brasília, tentando paralisar ou adiar o andamento das obras. O deputado e também jornalista, Carlos Lacerda, da União Democrática Nacional – UDN – principal partido de oposição, requereu uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI, que intimava todos os diretores da Novacap e empreiteiras a prestarem depoimentos, sob a alegação de irregularidades na construção da nova capital. Caso a CPI fosse aprovada, os opositores conseguiriam o que almejavam: paralisar as obras pelo tempo que durassem as investigações, representando um grande atraso na construção, de forma tal que Brasília não ficaria pronta na gestão de Juscelino, correndo o risco de permanecer inacabada. O clima era tenso e, para agravar ainda mais a situação, o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, insatisfeito com a pouca participação de seus correligionários no governo, ameaçava unir-se à UDN, apoiando a instalação da CPI. No Palácio do Catete, o Presidente e sua equipe esforçavam-se para reverter a crise. Juscelino advertiu ao PTB de que o governo romperia com o partido, dispensando todos os representantes que exerciam cargos na administração pública, caso apoiassem a iniciativa da UDN.

Margarida, de cabeça baixa, ocupada em datilografar despachos, foi pega de surpresa com a presença de Paulo no gabinete, naquela manhã. Trazia uma criança nos braços e sua aparência era de um homem mais maduro do que a de um ano antes.

– Paulo! Esperava por você só na próxima semana – levantou-se indo abraçá-lo. – Que saudade!

– Como vão as coisas aqui no Catete, Margarida, tudo como antes?

– Uma loucura! Isto aqui ainda vai acabar pegando fogo, por conta da construção da nova capital... E esta criança? – apertou as bochechas de Yuri que chorou, estranhando a mulher de idade e com grossos óculos.

– É meu filho.

– Seu filho? Só passou um ano fora e já me chega com uma produção nos braços? Trabalhou rápido, hem? – sorriu.

– Nada disto, eu o adotei – retribuiu o sorriso tentando acalmar o menino. – Quando tivermos oportunidade conto a você como tudo aconteceu. Mas... por que me chamaram de volta?
– Também não entendi direito quando redigi o ofício à Novacap. O Dr. Júlio está aí, quer conversar com ele?

– Por favor, Margarida, diga que estou aqui.

Olhava o ambiente ao redor e era como se tudo aquilo lhe fosse estranho, embora a disposição dos móveis, a cafeteira cheia de café e os biscoitos que Margarida sempre deixava à disposição sobre a mesa fossem seus velhos conhecidos. Dr. Júlio o recebeu calorosamente, enchendo-o de perguntas sobre Brasília, comentando como Paulo havia mudado, em tão pouco tempo, e, quando soube da adoção, ficou impressionado com sua atitude. Não criticou nem fez nenhum comentário negativo, mas pensou que o rapaz havia perdido a cabeça para fazer uma loucura dessas.

– Porque me trouxeram de volta? Por acaso a Novacap não está satisfeita com o meu serviço? – perguntou sem rodeios.

– Não é nada disto. Eles foram pegos de surpresa e não queriam liberar você. O pedido veio diretamente de um brigadeiro muito influente e, como eu pensei que não estivesse gostando de lá mesmo, chamei-o de volta.

Só agora Paulo pôde entender quem estava por trás disto tudo e, num sentimento de revolta, falou decidido:

– Não sou marionete nas mãos de vocês. Primeiro eu não queria ir e fui, praticamente obrigado, contra a minha vontade, e agora não quero voltar e estão me forçando novamente.

– Paulo, entenda...


– Eu quero voltar para Brasília e continuar o que comecei!

Continua...

Custódia Wolney

domingo, 8 de novembro de 2009

O preço de um sonho - Paulo é transferido para o Rio de Janeiro


O dia passou rápido, e Paulo não teve tempo de ir ao escritório. À noite, quando chegou em casa com Yuri adormecido nos braços, Luiz entregou-lhe uma correspondência lacrada.

– Estava em cima de sua mesa. Achei melhor trazer para você dar uma olhada.

Paulo abriu o envelope e leu a correspondência às pressas, atropelando-se nas palavras. Ao terminar, sentou-se, aturdido, na cama.

– Que cara é essa, Paulo?

– Estou sendo devolvido para o Catete. A Novacap agradece minha “valiosa” ajuda pelos serviços prestados – falou ironizando. – Tenho que me apresentar no Rio em cinco dias.

– A Novacap não pode te devolver para o Catete, aqui tem serviço demais. Você vai fazer falta!

– Outra pessoa deve vir ocupar o meu lugar.

– Aí tem “maracutaia”. Tudo é muito estranho, mesmo porque eu sei que estão satisfeitos com seu trabalho.

– Amanhã vou ver se consigo esclarecer alguma coisa. Às vezes foi algum engano. – acomodou Yuri no berço, cobrindo-o com cuidado e foi tomar um banho para tentar dormir.

No dia seguinte, no escritório, foi informado de que as ordens vieram diretamente do Palácio do Catete e que não poderiam fazer nada, a menos que ele fosse até lá e conseguisse reverter a situação.

Paulo passou o dia sem conseguir trabalhar direito. Colocou em ordem algumas pendências, atualizando os relatórios de sua responsabilidade e, no final da tarde, buscou Joyce, que o aguardava na saída da escola.

– Que carinha é esta, aconteceu alguma coisa? –Joyce falou, acomodando-se no jipe e beijando-lhe levemente os lábios.

– Aconteceu, sim... mas que tal comermos alguma coisa? Não almocei direito e agora... – disse enquanto passava a mão pelo estômago vazio.

– Paulo, já falei para você cuidar direito de sua alimentação... se continuar assim pode até adoecer.

Na churrascaria JK, enquanto aguardavam serem servidos, Paulo tirou do pescoço uma fina corrente de ouro com um pingente com a face de Cristo, colocando-a em Joyce.

– O que é isto?

– Esta corrente tem muito valor para mim.

– Mas por que colocou no meu pescoço?

– Para nunca se esquecer que eu te amo.

– Paulo, o que está acontecendo? Desde que me buscou na escola estou achando-o triste e encabulado – perguntou preocupada.

– Ontem, à noite, recebi uma correspondência. Estão me devolvendo para o Catete. Tenho que estar no Rio em cinco dias....

– Vai embora para o Rio?

– Não sei ao certo o que está acontecendo, então acho melhor ir lá pessoalmente resolver isto.

– Você não volta mais... – abaixou os olhos, entristecida.

– Claro que volto, Joyce! Não quero perder você, meu lugar é aqui.

Joyce olhou para o teto do restaurante, desanimada.

– Quero casar com você, me espere...

– Não me prometa nada, por favor!

– Não confia em mim?

– Confio. Mas a questão não é esta. Assim que tocar os pés na areia da praia, perceberá que tudo que aconteceu aqui foi uma ilusão passageira que o tempo se encarregará de colocar um ponto final.

– Não, Joyce, não é nada disto!

– Pelo pouco que conversamos sobre o assunto, sei que, antes de você vir para cá, também achou que não fosse para sempre, e até uma noiva deixou aguardando no Rio.

Paulo se calou ao perceber que estava fazendo a mesma coisa que fizera com Mariângela: deixar que a emoção do momento o conduzisse a promessas, que, em longo prazo, não poderia saber se seriam cumpridas.

– Desculpe! Estou falando o que realmente sinto, mas vamos deixar que o tempo se encarregue de mostrar que eu a quero de verdade.

Joyce fez um movimento para tirar o colar do pescoço, mas Paulo a impediu.

– É seu. Não se recusa um presente quando é dado de coração.

– Está bem, obrigada. Como vai fazer com Yuri?

– Vou levá-lo. É meu filho agora.

– Eu sei... mas quem vai cuidar dele enquanto trabalha?

– Não pretendo voltar a trabalhar lá. Só quero resolver esta situação e continuar com minhas atividades aqui.

– Quando vai partir?

– Amanhã. Não vou aguardar os cinco dias. Pretendo resolver logo isto.

– Então não nos veremos mais...

– Acho que não. Você trabalha o dia inteiro, e eu preciso colocar algumas coisas ainda em ordem.

– Foi muito bom conhecer você. Obrigada por tudo.

– Joyce, por favor, não faça isto parecer uma despedida!

Jantaram quase em silêncio, provando o gosto amargo de um distanciamento forçado. Quando saíram, foram direto para o convento buscar Yuri. Paulo apenas disse às freiras que passaria uma semana fora com a criança e que, quando voltasse, gostaria muito de poder continuar contando com a ajuda delas.


Continua...


Custódia Wolney

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O preço de um Sonho - Taguatinga: uma realidade.


Joyce comentou com Paulo sobre a vontade que tinha de ir até Taguatinga, pedir autorização do subprefeito da cidade para adquirir um lote. Era a oportunidade de ter alguma coisa sua, pois não poderia continuar, por tempo indeterminado, morando no Hotel Brasília. Paulo, de início, foi um pouco resistente, não queria que Joyce se submetesse a viver em algum barraco, distante da Cidade Livre, só para ter seu pedaço de chão. Porém, como ela demonstrou muito interesse e pediu a sua ajuda, combinaram de no outro dia irem juntos conhecer a nova cidade que surgia.
A Vila Sarah Kubitschek já tinha sido totalmente transferida, e a Novacap, além de ter colocado caminhões para transporte diário dos os trabalhadores, já havia dado início à construção do Hospital São Vicente de Paulo e de uma escola primária de alvenaria. Joyce e Paulo seguiram para a Administração, um barracão simples de madeira, e lá, foram informados de que só poderiam adquirir um único lote os trabalhadores e servidores mais carentes. Não havia contrato definitivo. O trabalhador interessado pagaria uma mensalidade à Novacap, como prestação, e que posteriormente seria abatida do preço do imóvel na época da compra definitiva. O terreno não poderia ser vendido e, para obter a escritura do lote, teria que construir e habitar, por pelo menos cinco anos.
Paulo ainda tentou convencer Joyce de não efetuar a compra, mas Joyce estava decidida demais para mudar de idéia e, ao saírem, já tinha em mãos a papelada e a localização de seu lote que ficava na parte sul da cidade.
– Agora tenho que construir... estou pensando em alguma coisa simples, de madeira, e, quando eu tiver uma condição financeira melhor, construo uma casa de alvenaria – comentou sorridente, enquanto entrava no jipe.
Paulo olhou com ar de preocupação, lembrando-se de Sofia, do barraco caído no chão, e fez um movimento negativo com a cabeça.
– Não, Joyce, de madeira, não! Basta a imprudência que eu e Gaspar permitimos que Sofia cometesse.
– Aquilo foi um triste acidente. Você não consegue esquecer, não é? – passou as mãos lentamente pelos cabelos de Paulo.
– Não vou esquecer nunca. Trago o filho dela comigo e agora posso ver os traços de Sofia no rostinho de Yuri.
– Não vai acontecer de novo e também não construirei um barraco qualquer, sem segurança. Será uma casa modesta de madeira.
– Vou ajudar você. Devagarzinho, sem pressa, podemos construir juntos uma casa de alvenaria que lhe ofereça mais conforto.
– Paulo... você já tem tantos compromissos e preocupações, além de mandar dinheiro para sua família... não acho justo.
– Joyce, entenda: você agora faz parte de minha vida e não quero ficar de fora de seus planos.
– Mas...
– Por favor, me deixe participar – acariciou as mãos dela lentamente, enquanto dirigia.
– Obrigada. Acho que você é um anjo que caiu do céu, bem nos meus braços! – sorriu.


Continua...



Custódia Wolney



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Preço de um Sonho - Joyce e Paulo


Na tarde daquele mesmo dia, Mariângela embarcou para o Rio de Janeiro. Paulo ficou surpreso e se sentia mais leve diante daquela demonstração de maturidade e compreensão. Do aeroporto, seguiu direto para o Hotel Brasília à procura de Joyce. Tinha uma urgência em vê-la e não aguardaria o domingo para encontrá-la na missa.
– Poderia chamar a Joyce, por favor? – pediu ao porteiro assim que entrou no hotel.
– Ela não chegou do trabalho ainda. Se o senhor quiser aguardar...
– A que horas normalmente ela chega?
– Às vezes atrasa um pouco, mas já deve estar quase chegando – falou olhando o relógio pendurado na parede.
Paulo estava ansioso e resolveu esperá-la na parada de ônibus. Quando estava se aproximando, viu o veículo diminuindo a velocidade, levantando poeira. Escondeu-se atrás de um frondoso ipê amarelo e assim que Joyce passou, segurando seus livros e os diários dos alunos, a seguiu silenciosamente, por trás, tapando-lhe as vistas com as mãos.
– Quem é? – falou parando assustada.
– Se descobrir ganha um beijo e um queijo – brincou ele.
Joyce reconheceu aquela voz e suspirou aliviada.
– Paulo! Que susto! – virou-se sorrindo e tirando as mãos dele do seu rosto.
– Adivinhou com muita facilidade!
– Reconheceria sua voz em qualquer lugar...
– Então... só falta ganhar o beijo...
Joyce se aproximou, esperando o beijo na testa, tão comum em suas despedidas, porém, ele segurou-lhe o queixo, levantando seu rosto com cuidado e se aproximou lentamente de seus lábios.
– Se não quiser, pode falar que eu paro... – sussurrou.
Joyce o puxou para si, entregando-se àquele momento. Seus livros caíram no chão e os diários sujariam na poeira da rua, mas não havia nenhum problema... os materiais poderiam esperar.


Continua...


Custódia Wolney.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O preço de um sonho - Paulo e Mariângela: A separação.


Naquela visita de Juscelino, várias outras obras estavam sendo inauguradas como a Rodovia Anápolis-Brasília, o Hotel Turismo, a Avenida das Nações, o Santuário de Fátima, conhecido como “a Igrejinha”. Mariângela queria conhecer tudo o que estava sendo feito, na tentativa de absorver por completo as atenções de Paulo. Visitou a construção dos edifícios de apartamentos de seis andares cada um, várias unidades residenciais e casas tipo “duplex”, porém não gostou muito das casas geminadas que estavam sendo construídas pela Caixa Econômica. Viu ruir sua esperança de que a construção de Brasília caísse no total descrédito, sem acontecer de fato, e sentia que Paulo estava muito envolvido com a nova cidade.


A cada passeio que fazia, Mariângela estava com um vestido novo, e, por mais que Paulo a prevenisse dos transtornos que seria visitar as obras com saltos altos, ela parecia não perceber ou não se preocupar com o total contraste de seu estilo de roupas com a singularidade das pessoas que circulavam pelas obras.


Ao anoitecer, Paulo buscou Yuri no convento e foi para a casa operária, pensativo. Começou a achar tudo artificial em Mariângela: os cílios postiços, a maquiagem carregada para um dia de sol quente, os saltos, que a todo momento afundavam na terra dificultando a caminhada, a insistência com que falava do teatro e das peças que ainda estavam por ser lançadas no Rio de Janeiro. Sabia das diferenças existentes no relacionamento deles, porém, agora, começava a perceber o abismo que a distância formara entre os dois.


No dia seguinte, ao buscar Mariângela no Hotel Santos Dumont para mais um dia de visita, levou-a até a avenida central da Cidade Livre. Deixou de lado a preocupação que tinha em lhe mostrar apenas o que estava sendo erguido em Brasília, e estacionou o jipe, convidando-a para uma caminhada a fim de conhecer a cidade e o burburinho de seu comércio. Mariângela aceitou a contragosto e saíram andando por entre aquelas construções simples de madeira, a rua cheia de trabalhadores braçais com seus macacões ou grossas calças de brim e, na cabeça, o tradicional chapéu de abas largas para se protegerem do sol. Muitos paravam para ver aquela silhueta delicada, cuja presença se destacava entre as demais mulheres moradoras do local, e todos, ao olhá-la, percebiam que se tratava de uma socialite que estava visitando a nova capital. Entraram na mesma padaria em que ele costumava tomar café na companhia de Joyce, quando então ele perguntou se aceitava alguma coisa.


– Não, obrigada, prefiro ir. Estou ficando cansada.


O atendente estranhou ver Paulo com aquela alinhada desconhecida e correu para tirar a poeira de uma das mesas e acomodá-los da melhor maneira possível. Mariângela sentou-se, olhando em volta. Não se sentia à vontade, observava, chocada, a quantidade de caminhões, cavalos, bicicletas, charretes e transeuntes que se misturavam na rua, empoeirada e sem asfalto, e achava de um grande mau gosto a música nordestina que saía dos alto falantes situados nos postes da avenida.


– Paulo, volte para o Rio. Aqui não é lugar para nós.


– Não pretendo mais voltar, aprendi a gostar daqui – falou pausadamente.


– E a gente? Você está cada vez mais distante.


– Teria coragem de deixar o Rio e vir morar comigo?


– Não gostei desta cidade, Paulo! Parece até que estou participando de uma cena de algum filme de faroeste! E esta poeira? Minha pele está toda ressecada! – olhou com ar de desdém para as simples instalações da padaria. – Vamos embora. Você já deu sua contribuição para esta maldita cidade! Não percebe que isto está nos afastando um do outro?


– Não quero prendê-la, mas se você encontrar no Rio alguém que a faça feliz, vou entender.


– O que você quer dizer com isto? Está rompendo nosso compromisso? – seus olhos encheram-se de lágrimas e, pela primeira vez, não se preocupou em borrar a maquiagem.


– A distância me fez ver que nossos caminhos são opostos, acredito que a separação será a melhor saída – conseguiu Paulo dizer.


– Você não sabe o que está dizendo. Eu te amo! Isto aqui é uma ilusão, tenho certeza de que se voltar ao Rio tudo voltará a ser como antes.


– Eu não pretendo voltar para o Rio, e seu estilo de vida não permitirá a você se adaptar aqui. O que aconteceu entre nós foi muito bonito e eu não vou esquecer nunca... porém, agora, nossas vidas tomaram rumos diferentes.


Mariângela não queria deixar transparecer seu ciúme. Sentia vontade de gritar, pedir satisfações sobre aquela mulher que vira ao lado dele no dia da inauguração do Palácio da Alvorada, queria impor que voltasse para o Rio, porque ele lhe pertencia, e não tinha o costume de aceitar um “não” com tanta facilidade.


Continua...


Custódia Wolney.