
A tarde caía e o pôr-do-sol em Copacabana era um cartão postal de boas-vindas. Caminhou com Yuri sobre a areia branca da praia, enquanto as gaivotas voavam à mercê do vento, buscando descanso nas pedras ainda quentes do calor do sol que se despedia. Ficou ali, na orla, até que a brisa fria do anoitecer o obrigou a ir embora. Amanheceu. Mariângela, que dormia com uma venda nos olhos para que a claridade do dia não atrapalhasse seu sono, foi surpreendida com umas batidas na porta de seu quarto. Já eram mais de nove horas da manhã. Levantou-se mal-humorada, por não ter dormido até às onze, como de costume.
– O que é? – perguntou irritada.
– Desculpe, senhora. Mas seu Paulo está aqui e deseja falar-lhe.
Mariângela deu um pulo da cama e falou apressada:
– Peça para aguardar um pouco que já estou descendo.
A espera foi demorada, quase uma hora se passou, até que ela descesse as escadas toda alinhada e maquiada.
– Bom-dia, querido! Que bom vê-lo, logo cedo! – aproximou-se para beijá-lo, mas Paulo, sutilmente, virou a face, oferecendo-lhe a bochecha.
– Bom-dia. Preciso de sua ajuda.
– Qualquer coisa. É só dizer que eu faço – abraçou-o pela cintura, ignorando completamente Yuri, que estava no colo de Paulo.
– Em Brasília, eu contava com a ajuda de algumas freiras para cuidar de Yuri durante o dia. Tenho muita coisa a fazer... você se incomoda de ficar com ele? – Não esperou resposta. Pegou a criança e colocou no colo de Mariângela, que ficou chocada com o pedido, ao passo que o menino chorava, estranhando-a.
– Mas, Paulo... eu tenho alguns compromissos agora de manhã... – parou de falar, percebendo que precisava se demonstrar mais solícita. – tudo bem, não se preocupe, tenho certeza de que nos divertiremos muito.
– Trouxe uma mochila. Tem tudo o que precisará: mamadeira, fraldas, leite em pó.... Yuri é uma boa criança. Se der a ele atenção e carinho, não dará trabalho nenhum... Então, já vou indo – olhou para o relógio e saiu apressado.
De longe, ainda podia ouvir o choro de Yuri. Sentiu vontade de voltar e pegar a criança, mas se deteve. Mariângela precisava entender que as coisas seriam diferentes. Tinha medo que maltratasse o menino, mas era um risco que precisava correr até que ela enxergasse que não era aquilo que queria para seu futuro.
Mariângela chacoalhava a criança no colo, de forma brusca e com força. Estava irritada, e Yuri, em resposta àquela rejeição evidente, chorava cada vez mais alto. Sentiu um odor estranho e uma quentura diferente em seu braço. Olhou e ficou enojada ao ver sua blusa de manga comprida ensopada. Era um líquido pastoso e amarelado, com pequenos fragmentos.
– Essa não! Você fez cocô, seu moleque! Olhe como deixou minha roupa? Josenita, Josenita! – gritou.
– Sim, senhora. – A criada entrou na sala esbaforida, com uma vassoura na mão.
– Dê um banho neste menino! A mochila está ali na mesa. Pegue-o rápido – entregou a criança à empregada, como se fosse um traste sujo e nojento.
– Sim, senhora – a empregada pegou a criança e saiu em direção à escada.
– Aonde você pensa que vai, Josenita?
– Dar um banho no menino. – Então por que está subindo as escadas? Não pretende lavá-lo no meu banheiro, não é?
– Eu pensei...
- Chispe para o banheiro dos empregados. Rápido, que este cheiro está muito forte.
Mariângela, apressada, subiu as escadas e tomou um demorado banho, ensaboando-se várias vezes, como se seu braço estivesse contaminado. Quando mais tarde desceu para o almoço, a mesa ainda não estava posta.
– Josenita! – gritou.
– Sim, senhora – saiu da cozinha com a criança no colo.
– O almoço ainda não está pronto?
– Não tive tempo senhora... estava cuidando da criança... eu acho que ela está com fome. O que eu faço?
– Depois que me servir o almoço, se preocupe com ele. Vá, vá, me dê que eu cuido dele enquanto você acaba de fazer a comida. Josenita se aproximou e Yuri começou a chorar no mesmo instante.
– Um momento! Enrole-o num pano para que não me suje de novo.
– Desta vez não vai ter problema. Eu coloquei uma calça plástica que encontrei na mochila.
O dia passou, mas nada que Mariângela fizesse acalmava a criança, que só parou de chorar quando dormiu, num sono agitado, resmungando várias vezes. Paulo deixou para buscá-lo só à noite. Mariângela, que havia perdido o horário no cabeleireiro e o chá das cinco com as amigas, não conseguia disfarçar sua irritação.
– Demorei? – Demais! Pensei que à noite poderíamos sair para nos divertir um pouco...
– Estou muito cansado, Mariângela. Só quero um banho e cama.
Josenita veio da cozinha, e Yuri ao ver Paulo abriu os bracinhos sorrindo.
– E aí, meu camarada, deu muito trabalho? – pegou-o no colo e seu abraço aliviou a saudade e o receio que sentiu durante o decorrer do dia.
– Que nada, é um amor de criança! – falou Mariângela, tentando sorrir, enquanto Josenita olhava desolada aquela simulação de carinho com a criança que só recebera maus-tratos da parte da patroa.
– Obrigado. Mas agora devo ir.
Desviou os lábios quando Mariângela os procurou e beijou-lhe a testa. Aquela frieza a estava incomodando. “Ele vai mudar, tenho certeza. Esta resistência vai acabar depois de uma noite em meus braços.” – pensou.
Continua...
Custódia Wolney







